
ante o explícito mistério. e a crua convergência de todos os ais. eis-me com fome eterna. suspensa. queda. neutra. perpetuamente. entre a busca do gesto e o retorno. de um gesto preciso. de um conciso gesto. rompido na ventania. aberto ao mundo. atirado a prumo e jeito de ser. despalavrado. um gesto mero. puramente. seja unção e fervor. seja desatadura. sem chamada de amigos. sem retinir inimigos. um gesto. unido. desmedido. atirado em mim.
Escrito por Marilena às 20h44
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não anoitece ainda
a lua reformou-se
e sabe-se em flores
o chão da eternidade inteira
persegue o brilho disponível
no meu mar
enquanto um banco de areia
espelha o retrato da espera
Escrito por Marilena às 21h11
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Salvador Dali
Há um cotidiano surdo caminhando estremecido pela impudica poesia.
Há uma tristeza imprudente sonhando escaladas em vastos penhascos.
Há a carne e o osso pensando eternidades.
Há instantes longos deitando-se sobre o agora.
Há a noite avassalada pela luz do dia que salteia.
Há o tempo.
Há tempos.
Escrito por Marilena às 01h20
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Acabo de receber da Cláudia Camara
(http://mentirashistoricas.zip.net/) o “meme da página 161”.
Trata-se disso:
1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abrir na página 161;
3. Procurar a 5ª frase completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.
Dentre os livros que estão ao meu alcance, escolhi sem olhar: A maçã no escuro, da Clarice Lispector.
Eis a frase:
“Ele misturou o cimento com exatidão, com urgência ininterrupta assim como os mil estremecimentos formam a vastidão do silêncio e o silêncio caminha.”
Passo a bola, então, para:
Márcia Cardeal http://sementeiradequimeras.blogspot.com/
Célia Musilli http://sensivelldesafio.zip.net/
Sonia Marini http://www.pulsarpulsar.blogspot.com/
Carlos Alberto Musilli
http://www.almalesma.zip.net/
Paulo Vigu
http://www.riodaqui.blig.ig.com.br/
Escrito por Marilena às 21h08
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Minha amiga Sonia Marini, do blog Pulsar Em Prosa e Verso (http://www.pulsarpulsar.blogspot.com/) indicou este blog a concorrer ao premio BLOG 5 ESTRELAS.
As votações terminam em 27/08 e cada blog indicado pode indicar outros 5. As regras para participar do concurso podem ser lidas no blog Nada para mim (http://npramim.blogspot.com/2007/07/blogday-o-dia-31-de-agosto-foi.html).
Teria mais de cinco para indicar, como por exemplo, o Museu de Tudo, do Theo (http://www.museudetudo.blogspot.com/), o Poeminhas para matar o tempo e distrair dor de dente, do Diovanni (http://www.diovmendonca.blogspot.com/), o Sou o que Sinto, da Valéria ( http://souoquesinto.blig.ig.com.br/), o Rio daqui, do Paulo Vigu (http://riodaqui.blig.ig.com.br/), o Alma Lesma, do Carlos Alberto Muzilli (http://almalesma.zip.net/), o Pulsar, da Sonia Marini, que me indicou, e todos os outros que estão linkados em meu blog, mas como só posso indicar 5, então, por ordem alfabética, escolhi os seguintes:
Caraminholas, do Marcos Pardim (http://mslppardim.blog.uol.com.br/)
Gavetas e Janelas , da Vassia (http://gavetasejanelas.zip.net/)
Mentiras Históricas, da Cláudia (http://mentirashistoricas.zip.net/)
Sementeira de quimeras, da Marcia Cardeal (http://sementeiradequimeras.blogspot.com/)
Sensível desafio, da Célia Musilli (http://sensivelldesafio.zip.net/)
Escrito por Marilena às 19h35
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Conheci Hilda Hilst na Casa do Sol.
Marcos Pardim, meu amigo, me levou até ela dizendo ter certeza que seríamos amigas.
Ela gostou de mim imediatamente. Eu era muito menina e não me era compreensível que um ídolo pudesse sequer tomar conhecimento da minha existência, menos ainda gostar de minha companhia.
Os ídolos me eram distantes e incomunicáveis e eu não sabia falar com eles. Mas ela falava comigo, me pegava pelo braço, enganchava-se em mim e fazia longos passeios comigo em seu jardim, contando-me coisas de sua vida, de amores passados, de sonhos deixados para trás, de alegrias e tristezas, as vezes chorava, outras vezes ria. Quando eu demorava para voltar, ela ligava me pedindo que fosse lá. Aconselhava-me sobre os homens que um dia eu teria e contava-me situações engraçadíssimas vividas com alguns dos quais ela teve em sua companhia.
Ela gostava que o Marcos lesse aquilo que ela havia acabado de escrever. Levávamos chocolate e ficávamos juntos, tardes inteiras, comendo, rindo, se emocionando e ouvindo o Marcos ler os escritos dela.
“O caderno rosa de Lori Lamby”, como é sabido, tinha a intenção de ser o seu grito de escarnio, “a sua banana para o mundo”. Divertia-se com a cara das pessoas que leriam “a porcaria” que tinha escrito.
Foi da boca do Marcos que ouvi, ainda em rascunho, pela primeira vez “O caderno rosa de Lori Lamby”. O Marcos foi lendo, com aquela voz redonda e grave, pausadinha, azul royal, de menino comportado, que só ele tem, e a gente, ao redor da mesa, foi se emocionando e constatando que, qualquer que fosse o tema, era impossível ela conseguir fazer porcaria com a palavra.
A lembrança mais deliciosa dessas tardes de leitura é a do Marcos lendo “Amavisse”. Ainda tenho a palavra dela, na voz dele, dançando em mim. É uma sensação linda, de encontro com o melhor da poesia dela, da qual sempre me reporto.
Um dia o Marcos quis que ela lesse os meus poemas. Fulminei-o com o olhar, tentando fazer com que ele fechasse a boca. Mas ela quis ler e eu, timidamente, os mostrei.
Ao terminar de ler ficou em silêncio por algum tempo, depois me disse que eu era uma poeta, talvez a melhor de minha geração que ela conhecia pessoalmente. Disse que estava feliz e triste com aquela descoberta. Feliz por encontrar numa menina esse talento, e triste pelo mesmo motivo. Disse-me que já havia escrito tudo o que queria e que não tinha mais vontade de escrever, e que, por isto, a vida havia ficado muito chata para ela. Pela sua experiência pessoal se alegrava demais em conhecer alguém tão jovem que sabia o que era poesia, e se entristecia, sob um certo aspecto, em pensar que este alguém poderia ter a mesma sina dela.
Lembrou-se de coisas e pessoas importantes que havia deixado em segundo plano na vida, para dedicar-se à literatura.
Falou de sua grande paixão em escrever e das noites, dias, semanas, meses e anos que, debruçada sobre sua palavra, a esmiuçava.
Escrito por Marilena às 23h27
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(continuação)
Demonstrou sua dor em não ser lida, sequer conhecida pelas pessoas desse País.
Lamentava ter dedicado todos os dias de sua juventude e de sua vida para escrever e jamais ter vendido seus livros sequer para pagar suas contas.
Falou de sua desilusão com a literatura de um país sem poesia.
Disse que sentia a vida escorrendo pelos dedos das mãos e já as via quase vazias diante de seu desespero em sua solidão e desamparo.
Como ela imaginava que a poesia seria o meu destino, me aconselhou a ler muito e disponibilizou-me sua biblioteca, aconselhando-me a tentar ter também os olhos atentos ao aspecto comercial desse trabalho, coisa que ela confessou não ter feito.
Nunca mais voltei lá, depois desse dia, e acho que nem o Marcos.
Tive medo de voltar. Eu era quase uma menina e sempre estive diante dela um tanto assustada com sua genialidade. Aproveitei aquele discurso sobre tristeza e solidão, bem como os sentimentos conflitantes dos quais acreditei existirem também no Marcos, para fugir para sempre daquela estranha e enorme emoção que era a de contracenar com um mito que me era grande demais.
Não segui seu conselho, porque não li o quanto ela me recomendou, nem sequer li um daqueles seus livros, infelizmente. Também não escrevi quase nada e isto porque não era a minha sina, nem a minha vocação. A linguagem jurídica, por fim, engessou as minhas mãos e as minhas asas.
Tenho muito a escrever, mas maior é o silêncio que contempla o meu universo.
Às vezes, porém, imperiosamente, minhas asas colocam-se para fora, e minhas mãos registram esses vôos.
Depois há o recolhimento e o mergulho novamente no silêncio.
Um silêncio trabalhoso, tear de emoções, palco de palavras desmaiadas.
Hoje escrevo, pensando nela, em Hilda, e para ela.
Na pele do silêncio,
poroso e denso,
tenho fora as mãos:
gestos, contornos descidos,
mãos nos corredores da tarde,
interpelando lembranças.
Escrito por Marilena às 23h26
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prisioneira de pautas e abcissas,
ela prossegue
na débil, indecisa e ascética
metamorfose.
indefine-se entre eclodir o
seu fermento
e o silêncio manifesto.
angustia-lhe a escolha
de si ou do seu gesto.
do predicado ou do verbo,
em dupla melancolia.
tensa, se-procura
no silêncio e no gemido.
exausta, a Deus suplica
urgentíssimo descanso,
ou, ainda, o santo dom
da una loquacidade.
Escrito por Marilena às 21h29
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foto Ney Bravo
Silêncio : tecelão do meu tempo
Escrito por Marilena às 13h52
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Momento inominável

Odilon Redon The Red Sphinx, c.1912
aqui, a ausência onipresente
nos longes,
braços movem solidão
nas ampulhetas,
nos metrônomos,
na hera,
na muro,
passam os minutos
é engano alheio
o escoar de amores
(é natal mais uma vez e é bom que assim o seja. porém, mesmo com a dimensão do significado da data impresso em mim de maneira particular quando criança, este é um período em que me sinto vazia e perplexa diante do frenesi que assisto, das tentativas de comprar felicidades, de alegrias ou tristezas exageradas diante da comum inflexibilidade do tempo. mas, é natal. é data que se pretende divina. e eu desejo a todos que seja uma data feliz, de felicidade verdadeira e descansada. que seja um dia nada “fake” para todos. um dia divinamente comum).
Escrito por Marilena às 02h24
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Há imagens
estocadas em mim
e esquecidas
Há sirenas
que se cortam na carne
paisagens sufocadas
Há preces
que são cenários desertos
muitíssimo desertos abertos ao Deus em gestação
Há preces
que são ancoras
são barcos
são réquiens
são zombarias
são acalantos
Há preces
que são mansas
Há preces
que são litânias e responsos
para um Deus quieto quieto muitíssimo quieto
Há amadas miragens
instauradas em mim
são insônias
Há silêncio
e sussurro
e escombro
Há uma imagem
balizada estocada no tempo do ser
Escrito por Marilena às 01h05
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No princípio era o nada. E o amor
passava o seu fôlego sobre o nada, ansiado.
E este sopro fez do nada o verbo que, nascendo,
libertou o amor.
E ficou o verbo.
E o verbo, livre, buscou incensos, auroras, sorrisos,
solitudes, arcancéis, amor, vazio,
- toda a matéria de seu artesanato.
E não se importou com os muros que o abrigaram
nem com as travas; não as temeu,
sabendo que era-é em ventura.
E debruçou sobre um velho piano,
tocando vastos poemas.
E pintou nas folhas e nos ventos
grandes paisagens.
E fitou oratórios, pássaros e a neve,
E não se surpreendeu no mundo novo,
lento dealbar; lento ingresso nos sótãos.
E prosseguiu,
como se fosse o único.
Sem palavras.
Escrito por Marilena às 20h54
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A paixão

Vivo, em tempos de paixão, como se não morresse,
como se em meus sítios não houvesse ausências.
Sonho-vivo estouradas aleluias
e nelas sequer comparecem réquiens.
Porque onde fremem desafios,
a impossibilidade se desfia em meus tecidos.
Mergulho em ares intranqüilos,
sou reconduzida à tenda dos humanos,
de onde, em outros tempos, desconheço o viver.
............................................
Embora não desejasse falar de mim neste blog nos moldes que segue abaixo, também não quero desmanchar prazeres. Portanto, atendo o convite que me foi feito pela Célia Musilli (http://sensivelldesafio.zip.net/) em participar de um jogo que consiste em falar seis coisas que são a minha cara.
1 – Sou advogada e política, portanto nem preciso dizer que passei mais da metade da minha vida brigando pelos outros.
2 – Sou apaixonada pela arte em todas as suas expressões, especialmente: literatura, cinema, pintura, arquitetura, música.
3 – Adoro conversar e viajar. Observo tudo, transformo tudo em palavras, e jamais me sinto estrangeira em qualquer parte do mundo.
4 – Mais importante que a comida, é a companhia e o lugar onde se come, especialmente se acompanhada de um bom vinho.
5 – Também gosto de atividades físicas, apesar de sentir muita preguiça em realizá-las.
6 – Amo meus filhos, e dizem que sou uma mãe vanguardista demais, fora dos padrões. Não sei. Desejo somente que eles sejam felizes e livres.
Escrito por Marilena às 20h04
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Em Veneza

Tu me doaste estas noites
de verão,
de ventos delicados,
de rumos acrobáticos,
de sons ancestrais.
A mim, apenas,
entregastes sílabas gemidas e desatadas,
o cortejo de barcas caminhantes,
por canais de ternas lembranças.
E recebi um mar de cantos-espantalhos
de alvores escondidos
com passos que desagregavam palavras
feitos de pausas liberadas
para a dança dos nossos mascarados silêncios.
E o silêncio abortou as noites escuras
desvendando luzes macias e tenras
de manhas lisas
lavadas de juras de amor eterno.
E houve testemunhas do envelhecimento
daquelas águas,
daquelas horas,
daquelas noites,
de nossos corpos.
Para o Paolo.
Escrito por Marilena às 19h59
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Infância abandonada

Que dor há de mais doer o que é abandono?
A fome, as luzes alheias, a sarjeta, a violência, o caos?
O desvario de ser, a asa, o grito?
Que sonhos, de menino, empunhando mortes,
E que sabes a vida tão finita?
Como cobri-lo de mãos e ternuras?
Que voz será tão indefinível?
Durante alguns anos criei e implantei dezenas de projetos sócio-culturais em minha cidade. Vi meninos e meninas sorrindo ao aprender a ler, a escrever, a dançar, a cantar, a desenhar, a pintar e, sobretudo, a sonhar. Uma cena que muito me comoveu e da qual nunca me esquecerei, foi presenciar uns daqueles meninos que estavam integrados em alguns desses projetos - e que haviam cometido crimes graves - num cinema da cidade, com um pacote de pipoca nas mãos e com os olhos cheios de lágrimas, diante da cena em que o Rei Leão morre ao tentar salvar seu filhote Simba. "Como poderiam chorar por aquilo se já haviam cometido até homicídio?" Entendi, imediatamente, que tudo o que eles queriam era acreditar num sonho. No sonho de ser gente normal. No sonho de nunca mais darmos a eles “coisas pobres para pobre”. No sonho de não serem abandonados por nós.
Dedico este post ao "Duda", um daqueles meninos que estavam no cinema chorando e que hoje reencontrei num dos corredores da Universidade de minha cidade, fazendo o 2º ano do curso de Publicidade e Propaganda.
Porque quando lhes é dado a possibilidade de sonhar, aqueles meninos renascem em suas infâncias, a reinventam e a reescrevem.
"Este poema é parte de uma blogagem coletiva, onde peguei carona. Encontra-se links para os outros textos aqui: www.lauravive.blogspot.com "
Escrito por Marilena às 21h38
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Encontro meu retrato

(Marilena by Bruna Maria - son)
Nesta imagem retornada
de todas as idas
sou e não sou sempre a mesma
minha paisagem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a minha fome
Da mesma lenta e estupefata verdade
De silêncios derramados em canções
De granitos se adensando nas nossas mesmas águas
De um todo de rio que em nós se alarga
Em um mar de caminhos que nos destinam ao mesmo encontro
A fazer-nos degustar em longas árias
De larguras tão longas e extremas
Que o horizonte desiste em olhar
A fundura mais pura de nossas cavas
Estive um pouco distante e mergulhada em meus silêncios. Nada ruim, somente uma outra maneira de degustar a poesia da vida. Retorno agora, mostrando a cara, e dedicando este retorno a dois amigos blogueiros que escrevem maravilhosamente bem e que sugiro à todos a leitura de seus posts: Cláudia, do http://mentirashistoricas.zip.net e Marcos, do http://mslppardim.blog.uol.com.br/.
Escrito por Marilena às 21h37
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Por força de circunstâncias, estou um pouco distante nestes dias, mas peço que visitem o blog da Valéria : http://pensar_e_um_ato.blig.ig.com.br/ .
Hoje ela esculpiu minhas palavras e ficou lindo o trabalho que ela fez.
Escrito por Marilena às 14h28
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Desvendando ternuras

Tens boca de sentir e olhos com afagos?
Mãos para recompor, caves de ternura?
Trechos do sol e do eterno?
Terás ouvidos prontos ao murmúrio e às preces minhas?
Ah, ronda do teu ser!
Escrito por Marilena às 15h42
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Poema para uma noite e para uma manhã

Soprei estremecimentos
em setas de lunares ousadias,
quando me convocou o desatento
fruto do querer.
Os pássaros-braços irromperam
da névoa ora antes d’agonia,
adensando-se naquele gozo.
O seu apenas corpo deu-me
uma noite lívido sacramento.
Depois arquitetaram os olhos
a gravitação do orvalho.
O passo estelar naufragou
a madrugada inclusa.
E os pés
foram fluindo sulcando
a manhã permanecente.
Escrito por Marilena às 16h22
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Escolhendo um presente

(Antonio Canova - Parigi - Louvre)
Sinto o cheiro do ar,
cheiro seco e bom.
É o sinal de que
daqui a alguns dias vou ao seu encontro. E eu, como sempre não levarei o presente
que é comum uma mulher dar a um homem
Será que gostaria mesmo de receber meus pertences de criança?
Todos os meus medos:
de avião,
de bicho-papão,
de escuridão,
de gente grande,
de lobo mau,
de papai noel,
de buraco que fica embaixo da cama,
de altura,
de cair no fundo do mar,
de desconhecido?
Você receberia a certeza
de ser meu anjo da guarda,
de não poder me abandonar,
de meus milênios de saudades,
de que não submergiria de nenhum dos seus mergulhos sem mim,
de que eu adoraria fantasmas.
Mas jamais cingiríamos nossa solidão em nosso abraço.
Escrito por Marilena às 20h47
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Daqui a pouco

1. o tempo far-se-á cristal
num golpe.
2. o tempo tornar-se-á embora,
e a distância será ninguém.
3. mas como descansarei a fome?
4. se o tempo em meu sítio será só ausência
porque viverei como se vivesse?
5. e se em mim, só eu serei,
porque o mais esperará minha gestação para ser?
Escrito por Marilena às 14h56
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Madrugada

Subias a ruela esconsa.
Ninguém reteve tuas mãos nas suas.
Com passos que pesavam, subias.
Portavas velas de porcelana,
Portavas álacres inquietudes,
Portavas miragens, imagens, músicas.
Portavas-te!
E era duro sentir-se,
quando se atenuavam as vozes,
ao longe, ao longe.
Nas vestes, pátina; nos olhos, sombras.
Subias.
Para lugar algum.
Ias, intransitivamente.
Escrito por Marilena às 16h30
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Promessa

No labirinto das febres
ela se esconde
para não fugir
com o verbo que a consome
No desvio da aurora
ela se esconde
para segurar nas mãos
as luzes sonegadas
Na transparente caverna
ela se esconde
com o farnel das promessas
a ventura edificando
Escrito por Marilena às 16h16
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Lembrança

(Pássaros - Lia Knapp - aquarela)
Vivíamos como pássaros sonâmbulos,
as grandes asas esgarçando ao vento,
enquanto íamos apressadamente
a parte alguma.
Famintos de espaço, cúmplices do tempo
e distantes do mundo. Éramos em comunhão
com os elementos apenas suspeitados.
As coisas a nós chegavam em espectros,
os tons dançando, esfumaçados;
ansiávamos
o que revelassem essas formas adensadas
nos olhos brilhantes, envoltas
em capas de vegetações grisalhas.
Somente as mãos dos deuses, às vezes,
surgiam longe, e as temíamos,
logo se desfazendo, liquens, chuvas, sombras
inominadas.
ooo
Vivíamos como pássaros
E vivíamos perante a morte,
éramos o que a morte permitia,
éramos dádivas daquelas cores fúnebres.
Escrito por Marilena às 17h29
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de tanto medo

"desde pequena sofria de dor na garganta, mas não pedia ajuda a ninguém, porque sabia que a sentia de tanto engolir choro.
olhava e percebia coisas, mas não as entendia, e estranhamente acreditava que quando isso ocorresse seu mal crônico ficaria curado, porque faltava respirar a liberdade que não sabia que se chamava assim.
Escrito por Marilena às 20h02
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(continuação)
o medo de tudo, daquela infinita feiúra, que era o quê percebia e não entendia, e de arder no fogo daquele inferno para sempre, lhe causava esquisitas reações, e a fazia rasgar cortinas, quebrar portas e janelas, riscar muros, gritar mentiras e engolir tantos choros.
só por causa de tanto medo, de tanto não-saber, é que descobriu a coragem.
quanto mais medo tinha, mais coragem passou a ter. quanto mais o tempo passava mais o medo aumentava e maior a coragem ficava.
e assim teve a coragem, quando aprendeu as letras, de escrever e dizer mentiras, de tanto medo de que aquela verdade misteriosa a esmagasse.
teve a coragem de desenhar suavidades e delicadezas e de pintar sonhos, de medo que a escuridão e inospitez da crua realidade lhe cegasse.
teve a coragem de deitar na cama com o homem proibido de medo que os homens permitidos a acorrentassem àquela existência. teve a coragem de ver aquele homem morrer, de medo do amor não ressuscitar.
Escrito por Marilena às 20h01
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(continuação)
teve a coragem de sonhar o sonho dos que não sabem sonhar, nem desenhar, nem pintar, de medo que a terra se transformasse num deserto, e por causa desses sonhos alheios, teve a coragem de colocar dentro das gavetas do armário da sua avó, os sonhos pessoais, os desenhos, os poemas. então teve a coragem de ser representante dos débeis, dos medrosos, dos que tem gargantas doloridas, dos que sabem que o céu também é cinza, das que amam homens proibidos e das que abandonam maridos agressivos e insensíveis, das que fritam o alho e a cebola no óleo saturado, infectando manhãs com o cheiro das verdades seculares e fedidas, dos que se contentam com a cerveja do bar da esquina, ao lado de mulheres com gargantilha de plástico, shorts curtinho, rimel e lápis bem preto nos olhos e batom brilhante nos lábios. teve a coragem de planejar, implantar e lutar pelo futuro dos filhos que estes todos os tipos de débeis abandonam nas ruas. teve a coragem de sentar à mesma mesa com eles para ouvir suas histórias e fatalidades.
teve a coragem de reescrever outros sonhos, poemas, redesenhar e repintar outras-mesmas delicadezas, belezas, mentiras e verdades que se-lhes espreitavam a séculos tantas vezes quantos anos teve.
teve a coragem de silenciar tudo, muitas vezes, entre todos os sonhos, de medo do barulho do não-sonho. teve a coragem de amar quantas vezes o amor nela ressuscitou. teve a coragem de deixar certezas para conhecer incertezas do grande mundo, do além-mar. teve a coragem de lá longe, do outro lado do mundo, rodeada de belezas antes inimagináveis, admitir a estranha falta das esquinas dos bares puídos, dos rostos de conhecidos desdentados, das calçadas esburacadas, do cheiro da fritura em óleo, do inóspito da vida daquela pequena cidade, da dor de garganta da amargura primitiva, da feiúra inexplicável daquele pedacinho de mundo.
e teve a coragem de voltar, de abraçar aquela estranha falta, de escrevê-la em versos, de desenhá-la e colorí-la e, e de declarar a todos, com a garganta sã, bem alto, o seu grande e surpreendente amor-medo-coragem pelo nada, pelo ninguém, pelo feio, pelo amargo, pelo escuro, pelo pequeno."
Escrito por Marilena às 20h00
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reencontro - oração - embriaguez

rezastes todo o corpo
salmodiando cada verso enlaguescido
o fluir de mãos pela pele
revelou mistérios
no abdome, a unção, o fervor
as faces ansiosas, enternecidas,
foram aragens brandas nas costas da messe
como um sacrário, os seios
acalentaram os lábios
nos cabelos, o naufrágio das mãos,
antes de cada dedo tecer
o rosto, em febre-doçura
tramastes para os olhos
o luzir da pungência,
cantastes os artelhos
na manhã deliqüescente
como altar,
tomastes a polpa dos pés
inundando de amor todos os poros
(Para os bons amigos que aqui me visitam, devo dizer que fiquei um tempo sem desejar escrever, nem achava mais que conseguiria ainda uma linha, num daqueles momentos que se vive na solidão de todas as palavras. Não sei se é comum a todos, mas em mim este silêncio sempre está a espreitar. O bom é que é cíclico e como vem, vai embora, de repente.)
Escrito por Marilena às 19h05
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quietude

que lusco ofusca
o nítido mistério?
por que fosca se fez
a noite solígena?
que trapos impurcaram
tuas vestes silfalinas?
que vozes te me dizes
na alcova de loucura?
que lassa quietação
envolve nossa paixão?
Escrito por Marilena às 19h06
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Outono

Desfolha-se o tempo em segredos
e pausas sussurrantes
As palavras saem das folhas aladas,
saem dos ventos tangendo cansaços
Há espera de tons cativos,
de sombras e catarses;
de ti,
cancela estonteante
em chão de lembranças.
Escrito por Marilena às 17h38
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