
Conheci Hilda Hilst na Casa do Sol.
Marcos Pardim, meu amigo, me levou até ela dizendo ter certeza que seríamos amigas.
Ela gostou de mim imediatamente. Eu era muito menina e não me era compreensível que um ídolo pudesse sequer tomar conhecimento da minha existência, menos ainda gostar de minha companhia.
Os ídolos me eram distantes e incomunicáveis e eu não sabia falar com eles. Mas ela falava comigo, me pegava pelo braço, enganchava-se em mim e fazia longos passeios comigo em seu jardim, contando-me coisas de sua vida, de amores passados, de sonhos deixados para trás, de alegrias e tristezas, as vezes chorava, outras vezes ria. Quando eu demorava para voltar, ela ligava me pedindo que fosse lá. Aconselhava-me sobre os homens que um dia eu teria e contava-me situações engraçadíssimas vividas com alguns dos quais ela teve em sua companhia.
Ela gostava que o Marcos lesse aquilo que ela havia acabado de escrever. Levávamos chocolate e ficávamos juntos, tardes inteiras, comendo, rindo, se emocionando e ouvindo o Marcos ler os escritos dela.
“O caderno rosa de Lori Lamby”, como é sabido, tinha a intenção de ser o seu grito de escarnio, “a sua banana para o mundo”. Divertia-se com a cara das pessoas que leriam “a porcaria” que tinha escrito.
Foi da boca do Marcos que ouvi, ainda em rascunho, pela primeira vez “O caderno rosa de Lori Lamby”. O Marcos foi lendo, com aquela voz redonda e grave, pausadinha, azul royal, de menino comportado, que só ele tem, e a gente, ao redor da mesa, foi se emocionando e constatando que, qualquer que fosse o tema, era impossível ela conseguir fazer porcaria com a palavra.
A lembrança mais deliciosa dessas tardes de leitura é a do Marcos lendo “Amavisse”. Ainda tenho a palavra dela, na voz dele, dançando em mim. É uma sensação linda, de encontro com o melhor da poesia dela, da qual sempre me reporto.
Um dia o Marcos quis que ela lesse os meus poemas. Fulminei-o com o olhar, tentando fazer com que ele fechasse a boca. Mas ela quis ler e eu, timidamente, os mostrei.
Ao terminar de ler ficou em silêncio por algum tempo, depois me disse que eu era uma poeta, talvez a melhor de minha geração que ela conhecia pessoalmente. Disse que estava feliz e triste com aquela descoberta. Feliz por encontrar numa menina esse talento, e triste pelo mesmo motivo. Disse-me que já havia escrito tudo o que queria e que não tinha mais vontade de escrever, e que, por isto, a vida havia ficado muito chata para ela. Pela sua experiência pessoal se alegrava demais em conhecer alguém tão jovem que sabia o que era poesia, e se entristecia, sob um certo aspecto, em pensar que este alguém poderia ter a mesma sina dela.
Lembrou-se de coisas e pessoas importantes que havia deixado em segundo plano na vida, para dedicar-se à literatura.
Falou de sua grande paixão em escrever e das noites, dias, semanas, meses e anos que, debruçada sobre sua palavra, a esmiuçava.
Escrito por Marilena às 23h27
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(continuação)
Demonstrou sua dor em não ser lida, sequer conhecida pelas pessoas desse País.
Lamentava ter dedicado todos os dias de sua juventude e de sua vida para escrever e jamais ter vendido seus livros sequer para pagar suas contas.
Falou de sua desilusão com a literatura de um país sem poesia.
Disse que sentia a vida escorrendo pelos dedos das mãos e já as via quase vazias diante de seu desespero em sua solidão e desamparo.
Como ela imaginava que a poesia seria o meu destino, me aconselhou a ler muito e disponibilizou-me sua biblioteca, aconselhando-me a tentar ter também os olhos atentos ao aspecto comercial desse trabalho, coisa que ela confessou não ter feito.
Nunca mais voltei lá, depois desse dia, e acho que nem o Marcos.
Tive medo de voltar. Eu era quase uma menina e sempre estive diante dela um tanto assustada com sua genialidade. Aproveitei aquele discurso sobre tristeza e solidão, bem como os sentimentos conflitantes dos quais acreditei existirem também no Marcos, para fugir para sempre daquela estranha e enorme emoção que era a de contracenar com um mito que me era grande demais.
Não segui seu conselho, porque não li o quanto ela me recomendou, nem sequer li um daqueles seus livros, infelizmente. Também não escrevi quase nada e isto porque não era a minha sina, nem a minha vocação. A linguagem jurídica, por fim, engessou as minhas mãos e as minhas asas.
Tenho muito a escrever, mas maior é o silêncio que contempla o meu universo.
Às vezes, porém, imperiosamente, minhas asas colocam-se para fora, e minhas mãos registram esses vôos.
Depois há o recolhimento e o mergulho novamente no silêncio.
Um silêncio trabalhoso, tear de emoções, palco de palavras desmaiadas.
Hoje escrevo, pensando nela, em Hilda, e para ela.
Na pele do silêncio,
poroso e denso,
tenho fora as mãos:
gestos, contornos descidos,
mãos nos corredores da tarde,
interpelando lembranças.
Escrito por Marilena às 23h26
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