Inquietações


Em Veneza

Tu me doaste estas noites

de verão,

de ventos delicados,

de rumos acrobáticos,

de sons ancestrais.

 

A mim, apenas,

entregastes sílabas gemidas e desatadas,

o cortejo de barcas caminhantes,

por canais de ternas lembranças.

 

E recebi um mar de cantos-espantalhos

de alvores escondidos

com passos que desagregavam palavras

feitos de pausas liberadas

para a dança dos nossos mascarados silêncios.

 

E o silêncio abortou as noites escuras

desvendando luzes macias e tenras

de manhas lisas

lavadas de juras de amor eterno.

 

E houve testemunhas do envelhecimento

daquelas águas,

daquelas horas,

daquelas noites,

de nossos corpos.

 

Para o Paolo.

 

 

 



Escrito por Marilena às 19h59
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Infância abandonada

Que dor há de mais doer o que é abandono?

A fome, as luzes alheias, a sarjeta, a violência, o caos?

O desvario de ser, a asa, o grito?

 

Que sonhos, de menino, empunhando mortes,

E que sabes a vida tão finita?

 

Como cobri-lo de mãos e ternuras?

 

Que voz será tão indefinível?

 

 

Durante alguns anos criei e implantei dezenas de projetos sócio-culturais em minha cidade. Vi meninos e meninas sorrindo ao aprender a ler, a escrever, a dançar, a cantar, a desenhar, a pintar e, sobretudo, a sonhar. Uma cena que muito me comoveu e da qual nunca me esquecerei, foi presenciar uns daqueles meninos que estavam integrados em alguns desses projetos - e que haviam cometido crimes graves - num cinema da cidade, com um pacote de pipoca nas mãos e com os olhos cheios de lágrimas, diante da cena em que o Rei Leão morre ao tentar salvar seu filhote Simba. "Como poderiam chorar por aquilo se já haviam cometido até homicídio?" Entendi, imediatamente, que tudo o que eles queriam era acreditar num sonho. No sonho de ser gente normal. No sonho de nunca mais darmos a eles “coisas pobres para pobre”. No sonho de não serem abandonados por nós.

Dedico este post ao "Duda", um daqueles meninos que estavam no cinema chorando e que hoje reencontrei num dos corredores da Universidade de minha cidade, fazendo o 2º ano do curso de Publicidade e Propaganda.

Porque quando lhes é dado a possibilidade de sonhar, aqueles meninos renascem em suas infâncias, a reinventam e a reescrevem.

 

"Este poema é parte de uma blogagem coletiva, onde peguei carona. Encontra-se links para os outros textos aqui: www.lauravive.blogspot.com "

 



Escrito por Marilena às 21h38
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Encontro meu retrato

(Marilena by Bruna Maria - son)

Nesta imagem retornada

de todas as idas

sou e não sou sempre a mesma

minha paisagem

E o que me vê

Não sabe de si mesmo a minha fome

Da mesma lenta e estupefata verdade

De silêncios derramados em canções

De granitos se adensando nas nossas mesmas águas

De um todo de rio que em nós se alarga

Em um mar de caminhos que nos destinam ao mesmo encontro

 A fazer-nos degustar em longas árias

De larguras tão longas e extremas

Que o horizonte desiste em olhar

A fundura mais pura de nossas cavas

 

Estive um pouco distante e mergulhada em meus silêncios. Nada ruim, somente uma outra maneira de degustar a poesia da vida. Retorno agora, mostrando a cara, e dedicando este retorno a dois amigos blogueiros que escrevem maravilhosamente bem e que sugiro à  todos a leitura de seus posts: Cláudia, do http://mentirashistoricas.zip.net   e Marcos, do http://mslppardim.blog.uol.com.br/.

 



Escrito por Marilena às 21h37
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