Inquietações


Poema para uma noite e para uma manhã

Soprei estremecimentos

em setas de lunares ousadias,

quando me convocou o desatento

fruto do querer.

 

Os pássaros-braços irromperam

da névoa ora antes d’agonia,

adensando-se naquele gozo.

 

O seu apenas corpo deu-me

uma noite lívido sacramento.

 

Depois arquitetaram os olhos

a gravitação do orvalho.

 

O passo estelar naufragou

a madrugada inclusa.

 

E os pés

foram fluindo sulcando

a manhã permanecente.

 



Escrito por Marilena às 16h22
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Escolhendo um presente

(Antonio Canova - Parigi - Louvre)

Sinto o cheiro do ar,

cheiro seco e bom.

 

É o sinal de que

daqui a alguns dias vou ao seu encontro.
E eu, como sempre não levarei o presente

que é comum uma mulher dar a um homem

 

Será que gostaria mesmo de receber meus pertences de criança?

Todos os meus medos:

de avião,

de bicho-papão,

de escuridão,

de gente grande,

de lobo mau,

de papai noel,

de buraco que fica embaixo da cama,

de altura,

de cair no fundo do mar,

de desconhecido?

Você receberia a certeza

de ser meu anjo da guarda,

de não poder me abandonar,

de meus milênios de saudades,

de que não submergiria de nenhum dos seus mergulhos sem mim,

de que eu adoraria fantasmas.

 

Mas jamais cingiríamos nossa solidão em nosso abraço.

 



Escrito por Marilena às 20h47
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Daqui a pouco

1. o tempo far-se-á cristal

    num golpe.

 

2. o tempo tornar-se-á embora,

    e a distância será ninguém.

 

3. mas como descansarei a fome?

 

4. se o tempo em meu sítio será só ausência

     porque viverei como se vivesse?

 

5. e se em mim, só eu serei,

    porque o mais esperará minha gestação para ser?

 



Escrito por Marilena às 14h56
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Madrugada

Subias a ruela esconsa.

Ninguém reteve tuas mãos nas suas.

Com passos que pesavam, subias.

 

Portavas velas de porcelana,

Portavas álacres inquietudes,

Portavas miragens, imagens, músicas.

 

Portavas-te!

E era duro sentir-se,

quando se atenuavam as vozes,

ao longe, ao longe.

 

Nas vestes, pátina; nos olhos, sombras.

 

Subias.

Para lugar algum.

Ias, intransitivamente.



Escrito por Marilena às 16h30
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