Inquietações


Promessa

No labirinto das febres

ela se esconde

para não fugir

com o verbo que a consome

 

No desvio da aurora

ela se esconde

para segurar nas mãos

as luzes sonegadas

 

Na transparente caverna

ela se esconde

com o farnel das promessas

a ventura edificando

 



Escrito por Marilena às 16h16
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Lembrança

(Pássaros - Lia Knapp - aquarela)

Vivíamos como pássaros sonâmbulos,

as grandes asas esgarçando ao vento,

enquanto íamos apressadamente

a parte alguma.

 

Famintos de espaço, cúmplices do tempo

e distantes do mundo. Éramos em comunhão

com os elementos apenas suspeitados.

As coisas a nós chegavam em espectros,

os tons dançando, esfumaçados;

ansiávamos

o que revelassem essas formas adensadas

nos olhos brilhantes, envoltas

em capas de vegetações grisalhas.

 

Somente as mãos dos deuses, às vezes,

surgiam longe, e as temíamos,

logo se desfazendo, liquens, chuvas, sombras

inominadas.

 

ooo

 

Vivíamos como pássaros

E vivíamos perante a morte,

éramos o que a morte permitia,

éramos dádivas daquelas cores fúnebres.

 

 



Escrito por Marilena às 17h29
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de tanto medo

 

"desde pequena sofria de dor na garganta, mas não pedia ajuda a ninguém, porque sabia que a sentia de tanto engolir choro.

 

olhava e percebia coisas, mas não as entendia, e estranhamente acreditava que quando isso ocorresse seu mal crônico ficaria curado, porque faltava respirar a liberdade que não sabia que se chamava assim.



Escrito por Marilena às 20h02
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(continuação)

 

o medo de tudo, daquela infinita feiúra, que era o quê percebia e não entendia, e de arder no fogo daquele inferno para sempre, lhe causava esquisitas reações, e a fazia rasgar cortinas, quebrar portas e janelas, riscar muros, gritar mentiras e engolir tantos choros.

 

só por causa de tanto medo, de tanto não-saber, é que descobriu a coragem.

 

quanto mais medo tinha, mais coragem passou a ter. quanto mais o tempo passava mais o medo aumentava e maior a coragem ficava.

 

e assim teve a coragem, quando aprendeu as letras, de escrever e dizer mentiras, de tanto medo de que aquela verdade misteriosa a esmagasse.

 

teve a coragem de desenhar suavidades e delicadezas e de pintar sonhos, de medo que a escuridão e inospitez da crua realidade lhe cegasse.

 

teve a coragem de deitar na cama com o homem proibido de medo que os homens permitidos a acorrentassem àquela existência. teve a coragem de ver aquele homem morrer, de medo do amor não ressuscitar.



Escrito por Marilena às 20h01
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(continuação)

 

teve a coragem de sonhar o sonho dos que não sabem sonhar, nem desenhar, nem pintar, de medo que a terra se transformasse num deserto, e por causa desses sonhos alheios, teve a coragem de colocar dentro das gavetas do armário da sua avó, os sonhos pessoais, os desenhos, os poemas. então teve a coragem de ser representante dos débeis, dos medrosos, dos que tem gargantas doloridas, dos que sabem que o céu também é cinza, das que amam homens proibidos e das que abandonam maridos agressivos e insensíveis, das que fritam o alho e a cebola no óleo saturado, infectando manhãs com o cheiro das verdades seculares e fedidas, dos que se contentam com a cerveja do bar da esquina, ao lado de mulheres com gargantilha de plástico, shorts curtinho, rimel e lápis bem preto nos olhos e batom brilhante nos lábios. teve a coragem de planejar, implantar e lutar pelo futuro dos filhos que estes todos os tipos de débeis abandonam nas ruas. teve a coragem de sentar à mesma mesa com eles para ouvir suas histórias  e fatalidades.

 

teve a coragem de reescrever outros sonhos, poemas, redesenhar e repintar outras-mesmas delicadezas, belezas, mentiras e verdades que se-lhes espreitavam a séculos tantas vezes quantos anos teve.

 

teve a coragem de silenciar tudo, muitas vezes, entre todos os sonhos, de medo do barulho do não-sonho. teve a coragem de amar quantas vezes o amor nela ressuscitou. teve a coragem de deixar certezas para conhecer incertezas do grande mundo, do além-mar. teve a coragem de lá longe, do outro lado do mundo, rodeada de belezas antes inimagináveis, admitir a estranha falta das esquinas dos bares puídos, dos rostos de conhecidos desdentados, das calçadas esburacadas, do cheiro da fritura em óleo, do inóspito da vida daquela pequena cidade, da dor de garganta da amargura primitiva, da feiúra inexplicável daquele pedacinho de mundo.

 

e teve a coragem de voltar, de abraçar aquela estranha falta, de escrevê-la em versos, de desenhá-la e colorí-la e, e de declarar a todos, com a garganta sã,  bem alto, o seu grande e surpreendente amor-medo-coragem pelo nada, pelo ninguém, pelo feio, pelo amargo, pelo escuro, pelo pequeno."

 



Escrito por Marilena às 20h00
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