Inquietações


No carnaval

Diego Manuel - óleo sbre tela

Quietação dos arlequins,

imensíssimo silêncio nas fileiras,

as zabumbas encostadas

aos pandeiros sem mãos.

 

Súbito,

algumas angústias pularam na avenida

e saíram gritando suas fomes.

 



Escrito por Marilena às 19h18
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Desenho

Flutuas vãmente

entre o tédio e o cansaço

constróis de ti

o esboço da espera;

tornas-te inapreensível:

um ser espectral;

o perfil que te faz

brilho, graça, encanto,

apenas esconde a essência,

a tortura escamoteada,

a ânsia sob domínio

 

Tensa, silenciosa, frágil,

te equilibras no momento

contínuo e clamante.



Escrito por Marilena às 18h29
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Naufrágio

Navio encapuzado

nos velames do quase,

a talvez memória,

a iminência do jamais,

as sepultas bandeiras com seu nome.



Escrito por Marilena às 19h50
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Camille Claudel

Sempre me causou impressão, encantamento e emoção a trajetória da mulher ao longo da história da humanidade. Lutas, silêncios, ternuras e força fizeram o mover de centenas de gerações.

 

Hoje, revendo um álbum de viagem, vi fotos que me fizeram lembrar de Camille Claudel. Quando, pela primeira vez, vi a escultura dela, La Valse, chorei copiosamente por mais de uma hora, pensando nesta mulher que decidiu quebrar os laços com sua classe social, com a moral vigente e com as normas de conduta bem aceitas em sua época. Tenho certeza que ela jamais foi louca, mas assim a consideraram e, por essa razão, ela esteve internada por 30 anos – até sua morte – num hospital psiquiátrico, depois de ter se entregado furiosamente à sua arte e a um péssimo amante, o escultor famoso, Auguste Rodin.

 

Dói-me pensar que ela fez, com suas próprias mãos, inúmeras obras que ele assinalou como suas, permitindo-se - como todas nós mulheres nos permitimos em algum momento da vida, por amor - ser roubada, saqueada e arrasada por um homem.

 

Não se pode negar o gênio a Rodin, mas deve-se questionar o quanto de preconceito e de sua postura como inverso de mestre prejudicaram um talento manifesto. Que não era mais florescente apenas, mas que exigia ar e aparecimento: ela, Camille. Ela, que num sopro poderia ser, sim, mais do que ele. E isso lhe era insuportável, como é insuportável para muitos homens que sua fêmea lhe seja superior naquilo que ele faz.

 

Camille era pouco conhecida do público. O reconhecimento de seu talento ficava restrito a artistas e intelectuais, mas mesmo entre eles o seu comportamento incomum certamente assumia feições de desvario. Sua família era rica, mas a adolescente apaixonada pela escultura não se deixava ficar entre rapapés, na condição de mulher passiva e obediente, à espera de um marido bem rico e amoroso. Muito pelo contrário. Desde menina fugia de casa para extrair barro para suas esculturas. A mãe, no entanto, se opunha à ambição de ser artista da pequena Camille. A sociedade francesa, preconceituosa e machista, também colocava muros à sua frente. Ela tentou passar por todos eles. Era mulher, e a escalada se tornava ainda mais difícil. O lance crucial de sua vida ocorreu quando decidiu empregar-se no estúdio do escultor Rodin, com quem pouco tempo depois passou a conviver na condição de amante.


A união marginal atiçava os comentários. Uma jovem impetuosa e um homem rico, famoso e mais velho, convivendo sem casamento oficial. Mas o fator determinante para os transtornos que se seguiriam a essa união não partiram exatamente daí. Tratava-se, no fundo, de um embate de natureza artística entre a intuição criativa de Camille e o apuro conquistado em anos de estudo pelo escultor oficial do governo francês, Auguste Rodin .


O rompimento entre os dois era a única saída para a sobrevivência criativa da jovem aluna que abalara de forma tão radical o universo artístico de seu mestre. Rodin não admitia as diferenças de potencial criativo entre ele e Camille. Quando a artista percebeu estar sendo usada por Rodin, veio o rompimento.

 

Então Camille ficou só. O irmão Paul Claudel, poeta, viajara para os Estados Unidos e lhe faltou mais esse amparo. Passou a criar obsessivamente. O golpe final veio quando, durante uma exposição, não conseguiu vender nenhuma escultura. O fracasso, o álcool, e agora o descrédito, somados às suas muitas decepções, fizeram-na indignar-se a tal ponto que, em dado momento, destruiu as peças que havia criado. E, assim, ela acabou sendo internada como louca.

 

Reescrevo rapidamente esta que é a história dela e sofro, porque inobstante os ingredientes que tornam a sua biografia fascinante aos olhares curiosos, quem conhece a obra dela, pode intuir que ela foi mais vítima da sociedade do que da loucura e, nisto, para muitos, infelizmente, também há um encanto hipnótico e avassalador porque quando se analisa Claudel o que se expõe é o prazer irresistível pela tragédia moral que ela viveu e se exalta como ponto de virtude o sofrimento dela. Mas o que importa realmente em Claudel; aliás, o que deveria importar quando se faz a revisão de sua obra, seria destacar o seu alto valor estético, sua ruptura com uma manifestação escultural adormecida e que era já, depois de um certo tempo, construção oficial das formas em Rodin. Deveriam ser exaltadas estas coisas, não sua desgraça.



Escrito por Marilena às 22h50
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continuação

Finalizo com um poema que escrevi pensando neles dois – Camille e Rodin – quando visitei de perto a obra dela.

 

Onde pus meu coração

haviam nuvens esculpidas

 

Onde pus meu coração

era palpável a beleza

 

Onde pus meu coração

eram ricas as possibilidades

enormíssima a esperança

 

...

 

De onde pus meu coração

todos os caminhos sumiram

 

De onde pus meu coração

nenhum pássaro mais saiu

 

De onde pus meu coração

as mãos ficaram perplexas

esculpindo os minutos,

num gesto jamais alcançável.

 

 



Escrito por Marilena às 22h49
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Descrição

                           Óleo sobre tela de Camila Mattosinho de Carvalho Alvite

És a noite circunscrita

ao dia que não lhe cabe;

és a noite que encela

os estigmas do dia.

 

Entre ser dia ou a noite,

não escolhes; escolhido,

fazes-te folha conversível

a inespaço dos dois.

 

À noite já não serves,

por ser grande demais;

também não vales ao dia

que a noite se apequenou.

 

Se no dia te retratas,

a noite outro compõe;

quando ao dia te despes,

a noite te leva a pele;

e se no dia escureces,

orvalhas luzes na noite.

 

És o ponto irrestrito

entre o tempo e o contratempo;

és o nada do naufrágio

nesta ponte intemporal.

 

(Sobre o mote de Perry;

“A noite não cabia no dia”)

 



Escrito por Marilena às 17h44
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Como você

                                                                                                 óleo sobre tela - Eva Gonzalo

§Um lago é rio

imerso na inquietude

 

§Um lago não é páramo

é confluência de ondas

na solitude

 

§Um lago se torce

de tanto se tragar

e temer exaurir-se

como se fosse rio,

como se fosse mar,

como se fosse o mistério

absolutamente inequívoco

das três deidades,

as três imensas solidões

que o habitam

 

 § Um lago é espanto

na madrugada;

aleluia nas auroras,

esperança entre os ventos

que o corroem

 

§Um lago é como você:

pronto para o naufrágio,

temeroso de si,

ansioso pelo salto,

os pés despertos,

as mãos em prece

 

 



Escrito por Marilena às 14h57
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Sobre perguntas de crianças e textos de adolescentes

 

 

 

Tenho três filhos, e o menor deles, Lucas, com 5 anos, faz cada pergunta ..

 

Hoje de manhã ele estava brincando que era um super herói e, num determinado momento, parou, colocou a mãozinha na altura do coração, pensou um pouquinho e depois continuou brincando.

 

Mais tarde se aproximou de mim, novamente com a mãozinha no peito, e me perguntou o que é que o coração poderia ser se não fosse coração e se ele vivesse na terra da imaginação.

 

Lembrei-me de um texto que não sei se foi eu ou o Marcos Pardim (www.mslppardim.blog.uol.com.br) quem escreveu, porque já faz tanto tempo e como trocávamos diariamente pensamentos e letras, a autoria deste se misturou na deslembrança e ficou, para sempre, incerta. O Marcos me disse que não é dele, mas eu não sei não, porque também não creio que o texto seja meu e, seguramente, foi um de nós dois quem o escreveu.

 

E a resposta ao Lucas foi aquele texto, escrito no final dos anos 70, quando eu e Marcos éramos adolescentes, cujo título é "Na terra do coração":

 

“Passei o dia pensando – coração meu, meu coração, o quê seria você se não fosse só um coração? De repente ficou só som – cor, ação – repetido, invertido – ação, cor sem sentido – couro, ação e não. Quis vê-lo escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

 

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em princípe.

 

 Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível.

 

Meu coração é o mendigo mais faminto da rua mais miserável.

 

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Marrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda de rock.

 



Escrito por Marilena às 02h09
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continuação

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós- moderno, coloridíssimo de néon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

 

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. A lua cheia brotou do mar.

 

Meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada.

 

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublimou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or ayone”.

 

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de Bourbon, contemplado por um único verso arranhado. Rouco, louco.

 

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

 

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

 

Meu coração é uma velha carpideria portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheio de gemidos – ai de mim ! ai, ai de mim!

 

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Vega.

 

Faquir involuntário, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrine vazia, navalha afiada, cão uivando para a lua, lua cheia, vastidão, vivacidade. Meu coração é teu.”

 

Ao terminar de ler o texto, que li cantarolando, Lucas, divertindo-se muito com minha "música", disse: “Que coração complicado ! O meu coração é só um sorvete colorido de todas as cores e quem experimentar vai ser feliz para sempre !

 

 

 



Escrito por Marilena às 02h05
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Vigília

Foto Ney Bravo

Inútil vigília das ondas na praia,

dos coqueiros mirando,

dos pássaros esquivos e o espanto do céu

 

Entre tons e semitons, fugas e

sontas baquianas, é sol apenas

e um dia a mais de inútil vigília

 

Inútil vigília nos faróis, nas torres,

nos calabouços, nas mansardas,

nas selvas, nos barcos e dentro dos peixes

 

Inútil vigília nos livros e nos diálogos,

nos rádios esperando a notícia,

estendido no chão esperando os tambores

com a notícia

 

Inútil vigília das noites;

inútil vigília de seus braços em mim



Escrito por Marilena às 13h44
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Eu - Alguém

                                                                       Foto Ney Bravo

Tens nome? Aderes

a circunstantes esgares?

Conspiras com os que te fazem

esboço, memória, imagem

caricata?

 

Tens nome? Recebes comovida

a benção dos anciãos, acolhes

quieta a trama do tempo,

aplaudes ainda o que fazem,

de ti, espelho de seus sonhos?

 

Tens nome?

Prefiro-me só,

órfã de mim.

 



Escrito por Marilena às 19h29
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Abismo

Você tem um relógio dentro de si, também um esquadro, talvez.

Comigo tenho um abismo.

Para você há o momento. Para mim, não há.

Vivo sob o império da possibilidade. Você é presa do necessário.

Aí está seu triunfo: aceitar o que lhe parece inexorável.

E sua derrota, ser vítima de um destino agrilhoado aos matizes externos.

Ao seu quadro, contrapõe-se minha enorme liberdade, por paradoxal que pareça.

Tenho a liberdade de entregar-me ao possível, até o extremo.

Você se curva e teme. Eu me dôo e afronto.

Sua força, poder-me conduzir ao abismo.

Minha força, aceitar esse fato com alegria indescritível.

 



Escrito por Marilena às 18h50
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À moda de João Cabral

§ Teu silêncio é como fera

que engole seu brumido

É como faca que não mede

O instante do gemido

 

§Teu silêncio é como o canto

que se arrepende no caminho;

entre a alma e a boca,

a garganta é um abismo

 

§ Teu silêncio é grande grito

que se grita para dentro;

embutido, fica trêmulo

no receio de si mesmo

 

§Teu silêncio é faca, é fera,

é canto, é grito,

é jeito de futuro olhar

é jeito de me matar

 



Escrito por Marilena às 11h43
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